terça-feira, 22 de novembro de 2011

O criado que não ficou mudo.

Nascido em uma época onde alguns poucos tinham privilégios na burguesia que detinha o poder no país, e numa fazenda de café no interior de Minas Gerais, ele aprendeu, desde muito cedo, que o silêncio fazia parte de sua condição. Só os mais abastados podiam ousar falar o que pensavam, ousar sonhar.
Porém, com o passar do tempo, começou a enxergar outros horizontes, graças ao acesso à escola que sua abençoada mãe lhe proporcionara. A escola, distante de sua modesta casa, e a uma distância nada pequena que ele percorria todos os dias, pela manhãzinha, a pé, pois nem de uma égua cansada podia dispor.
Esses novos horizontes que ele começava a vislumbrar lhe davam a força necessária para percorrer aqueles cansativos caminhos de terra, pedras e buracos. E ele começava a considerar outras possibilidades, outros caminhos, outras paradas.
Ele não era um filho rebelde, apenas inconformado com a forma pela qual os outros à sua volta se resignavam à sua condição inferior, até então considerada imutável.
Até que, em uma noite de lua cheia, ele finalmente resolveu partir. Pra desespero de sua família, sempre muito recatada, religiosa e serviçal. Partiu sem rumo certo, apenas com a certeza do desejo de mudança, de renovação, de  uma nova chance em sua trajetória.
Foi então que, em sua primeira parada, num pequeno albergue na beira da estrada, que conheceu um mestre em marcenaria, o Sr. Alcebíades. Logo que se conheceram, estabeleceram uma relação de pai pra filho, dessas que só quem passa pode entender. Seu mestre então começou a lhe ensinar algumas coisas mais práticas da vida, a mostrar novas possibilidades de caminho, novas técnicas de seu trabalho. E ele começou então a entender que tinha opções, que não precisava ser sempre aquele criado que tinha nascido, nem seu destino estava selado para todo o sempre.
E, foi aí que sua vida mudou radicalmente – passou de um simples e pardo criado-mudo a um lindo e radiante criado-nada-mudo azul turquesa.

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